NOVEMBRO 2018

Semeadura avançada da soja e culturas de verão. Precipitação ABR/SET abaixo da média em partes RR2 e 3. Colheitas quase terminadas: café, cana, algodão, citros, milho 2ªsafra, trigo. Lenta brotação de pastos. Boas floradas de café e citros

 
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:: Plantio Direto e Desenvolvimento Sustentável
Bernardo Van Raij - Consultor, pesquisador do IAC, ex-chefe geral da Embrapa Meio Ambiente, conselheiro da Pró-Terra e parceiro-colaborador da Agrisus, que o apóia na realização de trabalhos, estudos e projetos de pesquisa.
O aumento da produção agrícola brasileira nas últimas décadas deveu-se, em grande parte, à viabilização da agricultura em solos de baixa fertilidade natural, através do uso de calcário e fertilizantes, principalmente na grande região dos cerrados do Brasil Central, mas também em solos empobrecidos do Sul e do Sudeste.

Contudo, embora a calagem e a adubação tenham sido fundamentais para a elevação da produção agrícola, em sentido inverso, o insidioso processo da erosão desgastava os solos e até os destruía, reduzindo a produtividade, muitas vezes forçando a mudança de agricultura para pastagens ou até mesmo o abandono da terra.

Porém, nada se compara com o que vem acontecendo, no controle da erosão, com o sistema de manejo do solo e sua cobertura, conhecido por plantio direto. O plantio direto vem sendo adotado pelos produtores há duas décadas, com um crescimento de área de caráter exponencial, chegando atualmente em 20 milhões de hectares.

Para compreender o que isso significa do ponto de vista do desenvolvimento sustentável, é preciso compreender as funções ecológicas do solo, como elas são afetadas pela erosão, e como o plantio direto reverte o processo de degradação.

O papel ecológico do solo

O solo é o mais valioso recurso natural para a agricultura. Situado entre a litosfera e a atmosfera, é o sustentáculo de grande parte da biosfera terrestre. O que caracteriza o solo e o diferencia do material não consolidado, que muitas vezes está por baixo, é a presença de organismos, que produzem e degradam matéria orgânica, promovendo sua transformação. Microorganismos provocam a mineralização da matéria orgânica decorrente de restos vegetais e de outros organismos. Nesse processo nem toda a matéria orgânica é mineralizada. Uma parte mais resistente permanece, como húmus ou matéria orgânica do solo, conferindo ao solo propriedades notáveis de agregação, porosidade e retenção de água e nutrientes. Isso permite o desenvolvimento das plantas, que retiram do solo, através das raízes, a água e os nutrientes minerais.

O solo ocupa um papel central na ciclagem dos nutrientes, com destaque para o carbono e o nitrogênio, não existentes em rochas, mas incorporados ao solo. Os solos do mundo contêm mais carbono retido do que a atmosfera e a biosfera. O cultivo dos solos leva a grandes perdas de matéria orgânica e liberação de gás carbônico para a atmosfera, portanto contribuindo para o efeito estufa. Curiosamente, é assunto pouco lembrado quando são listadas as principais fontes que vêm lançando gás carbônico para a atmosfera e causando o efeito estufa, muito embora se trate de carbono anteriormente retirado da atmosfera.

Há, ainda, um outro papel ecológico fundamental do solo, representado por sua participação no ciclo da água. Em um solo estável, com vegetação natural, existe normalmente um grande número de espécies vegetais e animais e de microorganismos, vivendo em equilíbrio, inclusive com o solo. Em tais sistemas o solo permanece coberto o tempo todo, a taxa de infiltração é elevada e a água penetra no solo com facilidade. O solo tem capacidade de reter e armazenar a água por tempos bastante longos, o que permite a sobrevivência das plantas mesmo em períodos de longas estiagens. O excesso hídrico, que ocorre quando o teor de água no solo atinge a chamada capacidade de campo, infiltra e pode atingir o aqüífero subterrâneo. Os aqüíferos, por sua vez, fornecem a água das nascentes, que formam os córregos e os rios. Parte de toda a água transforma-se em vapor, pela evapotranspiração, e retorna à atmosfera, fechando, assim, o ciclo da água.

A erosão

Arar sempre foi um passo importante para a agricultura, principalmente para aquelas culturas de ciclo curto, ou “anuais”. Acreditava-se que era preciso deixar a terra “fofa”, para que as raízes das plantas recém-germinadas pudessem penetrar no solo sem dificuldade. A aração também tinha o mérito de controlar as “más ervas” ou “plantas daninhas". Uma vez estabelecida a cultura, era importante controlar o mato, deixar a cultura “no limpo” para evitar a competição por água e nutrientes “. Ou seja, só as plantas cultivadas deveriam ocupar a área; todas as outras iriam competir por água e nutrientes e deveriam ser eliminadas.

Com o tempo, essa forma de manejo se revelou inadequada, especialmente após a invenção dos herbicidas que vieram a apresentar uma alternativa para controle das invasoras. Solo descoberto e exposto, em terreno com declive, é solo vulnerável. Quanto se escreveu, com embasamento teórico, sobre o poder desagregador da gota de água! Sim, sobre aquelas gotas de chuvas que, caindo sobre o solo recém-arado, libertam o tão esperado “cheiro da terra “ que prenuncia a estação das águas. Mas aquelas mesmas gotas também agridem e levantam as partículas de solo. E muitas gotas vêm depois, e já não se pode reconhecê-las reunidas em deflúvios, que escorrem declive abaixo. Quando há erosão, a água lamacenta carrega a melhor parte do solo, a fração mais fina, chamada de argila, a que mais contém matéria orgânica e nutrientes. Os pesquisadores avaliaram que, no Brasil, as perdas de solos podem atingir dezenas de toneladas de terra por hectare em um único ano.

A erosão carreia uma parte boa do solo, com prejuízo para a produtividade pela degradação do solo que perde parte da camada superficial mais rica pelo arraste de material pela erosão. A erosão pode, também, destruir a superfície do solo, formando sulcos que dificultam ou impedem o trânsito de máquinas. Esses sulcos adquirem, em alguns solos, dimensões enormes, formando as chamadas voçoroca.

A terra removida do solo causa assoreamento de rios, lagos ou reservatórios; a lama reduz o espaço para a água, agravando as enchentes. Os reservatórios passam a ter a capacidade de água reduzida e o tratamento de água para suprir as cidades torna-se mais difícil e custoso.

O plantio direto

Plantar sem arar já era estudado há muito tempo pelos pesquisadores, ainda na primeira metade do século passado, mas os resultados experimentais não entusiasmaram e a viabilidade de realizar tal tipo de plantio não avançou. Também não existiam as máquinas e os herbicidas atuais.

O plantio direto no Brasil surgiu há cerca de trinta anos por conta de produtores do Paraná, que buscavam simplesmente a sustentabilidade de suas propriedades, já que a erosão ameaçava inviabilizar a produção agrícola. O processo que se seguiu, com a adoção crescente pelos produtores, a adesão de técnicos, pesquisadores, produtores de máquinas e insumos e outros é por si só uma notável história da agricultura brasileira, que tem sido difundida e apropriada por um número sempre crescente de entusiastas.

O plantio direto, também conhecido por plantio direto na palha, cultivo mínimo, ou cultivo zero, vem recentemente sendo chamado de agricultura conservacionista. A essência do processo é manter o solo sempre coberto com vegetação, viva ou morta; nunca revolver o solo e praticar a rotação de culturas.

Impacto ambiental do plantio direto

O plantio direto tem vários impactos ambientais positivos, devolvendo ao solo algumas de suas funções ecológicas, principalmente a de ciclagem de água. O efeito mais procurado, o controle da erosão e seus efeitos,traz conseqüências benéficas ao solo, que incluem a redução das perdas de terra e do assoreamento dos corpos d"água superficiais.

A erosão é reduzida pela maior infiltração de água, em vez de escorrimento pelo terreno. Isso tem várias conseqüências. Pela infiltração de água e menores perdas no deflúvio, as enchentes são menos acentuadas e, pelo maior suprimento de água aos aqüíferos subterrâneos, o suprimento de água durante os períodos de seca é maior. Dessa forma, o solo tem devolvida, em grande parte, o que havia perdido pelo cultivo: a sua função ecológica de ciclagem de água.

Outro efeito importante é o aumento da matéria orgânica do solo, revertendo a contínua queda que se verifica em solos sob cultivo convencional. Isso se explica pelo não revolvimento do solo por cultivos com arado e grade, o que reduz a oxidação da matéria orgânica. Dessa forma, o solo acumula mais carbono e nitrogênio, restabelecendo, assim, pelo menos em parte, o que havia sido perdido dos ciclos do carbono e do nitrogênio. Esse efeito ocorre não só em áreas susceptíveis à erosão, mas mesmo em solos que não apresentam esse problema.

O não revolvimento do solo tem favorecido a biodiversidade do solo, o que tem contribuído para melhorar a porosidade e alguma proliferação de inimigos naturais de pragas e doenças.

O desenvolvimento sustentável

Como situar o plantio direto dentro do chamado desenvolvimento sustentável? Pelo que já foi dito, percebe-se que a prática tem um notável efeito em garantir a produção agrícola, reduzindo a erosão e a poluição dos recursos hídricos, influindo de forma muito favorável nos ciclos da água, do carbono e do nitrogênio e até mesmo contribuindo para a biodiversidade do solo.

Contudo, isso não é suficiente, já que o conceito de desenvolvimento sustentável deve ser visto não apenas na área em que se localiza o plantio direto, mas também avaliado na perspectiva dos efeitos que a agricultura praticada e o manejo das áreas não cultivadas das propriedades têm sobre o meio ambiente e sobre o homem. Cabe, então, analisar como os produtores que utilizam o plantio direto podem ser vistos dentro dos conceitos do desenvolvimento sustentável. Antes, porém, é preciso conceituar o que se entende por desenvolvimento sustentável.

O relatório da ONU da Comissão Brundtland, “Nosso Futuro Comum”, de 1987, definiu o desenvolvimento sustentável como aquele que “atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras de atenderem às suas próprias necessidades”. Outro marco fundamental é a Agenda 21, aprovada na Conferência da Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992, a chamada ECO-92. A Agenda 21 é uma espécie de consolidação de diversos relatórios, tratados, protocolos e outros documentos elaborados durante décadas na esfera da ONU, começando em 1948 com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Trata-se de documento muito rico em informações, diretrizes e recomendações, podendo ser considerado um programa de ação para implementar o desenvolvimento sustentável, que deve conciliar o resultado econômico, a preservação ambiental e o interesse social.

O plantio direto e o desenvolvimento sustentável

Dessa forma, o produtor praticante do plantio direto, que busca o desenvolvimento sustentável, deve cumprir com outros requisitos, que são a preservação da flora e da fauna, a redução do gasto de energia e do uso de recursos não renováveis, a redução da contaminação ambiental.

Um dos pontos críticos da agricultura está na ocupação da terra. Áreas de reserva florestal legal e de proteção permanente não devem ser ocupadas. Essas áreas são consideradas importantes para proteger os recursos hídricos e a biodiversidade.

O plantio direto utiliza menos energia que o plantio convencional, pela redução das operações de cultivo do solo, estando, portanto, na direção certa no que tange à sustentabilidade.

Fertilizantes são produtos essenciais à agricultura, utilizados em grandes quantidades no sistema de plantio direto. Há dois aspectos a considerar: o uso de recursos naturais não-renováveis e a poluição ambiental. No caso dos recursos naturais não-renováveis, os principais são os fosfatos, retirados de jazidas que têm um limite de exploração, embora distante; e os adubos nitrogenados, fabricados pela fixação do nitrogênio atmosférico, combinado com o hidrogênio extraído principalmente do gás natural, também um recurso natural não-renovável. O que pouco se comenta é a enorme economia que a principal cultura do plantio direto, a soja, traz, por fixar o nitrogênio diretamente do ar. A quantidade de nitrogênio introduzida pela soja nos sistemas de produção do Brasil é duas vezes maior do que todo o nitrogênio contido nos adubos minerais.

Quanto à poluição na agricultura, em qualquer sistema de produção, os principais problemas são de nitrato em água subterrânea e nitrato e fosfatos em águas superficiais. Em nenhum desses casos, espera-se grande problemas nas grandes áreas de plantio direto, mas podem ocorrer no caso de plantações de milho de alta produtividade e em regiões que têm produção intensiva de gado leiteiro ou de suínos, utilizando os dejetos no plantio direto. Para o enquadramento no conceito de desenvolvimento sustentável, fertilizantes, minerais ou orgânicos não devem ser aplicados acima das quantidades necessárias, com o que se evita desperdício e poluição.

A proteção de plantas é outro problema complicado, pelo risco que os pesticidas usados apresentam para os aplicadores e o meio ambiente, além da possível contaminação de produtos agrícolas. O caminho da sustentabilidade, nesse caso, passa por evitar aplicações pelo calendário e implementar medidas que reduzam as pragas na origem, como rotação de culturas e manejo de hábitat de inimigos naturais, pela diagnose de problemas, pela decisão sobre o controle de pragas usando o manejo integrado de pragas (MIP), pela escolha de produtos menos tóxicos e pela aplicação correta, que evite a deriva e contaminação das áreas florestais e cursos d’água.

Somente esses casos já dão uma idéia da dificuldade de se poder alegar a adesão ao desenvolvimento sustentável. Pelo que se percebe, nos locais de produção, poucos produtores qualificariam totalmente. Pior: muitos produtores estão confiando demais no plantio direto para o controle de erosão, -eliminando os terraços antes da melhoria da permeabilidade e da consolidação da camada de resíduos-, com o que já se observa escorrimento de água, embora limpa, sobre o terreno, com o que se perde parte da função do solo no ciclo da água, além do arraste de pesticidas para os cursos d"água.

Desenvolvimento Sustentável como imagem institucional

Desde a década de 90, muitas empresas buscaram mostrar à sociedade o comprometimento com o meio ambiente, adotando normas e certificação ambiental, como é o caso da adoção da ISO 14000. Embora inicialmente visasse criar uma imagem favorável para as empresas, perante clientes, acionistas e o público de uma forma geral, em muitos casos as medidas tomadas refletiram de forma favorável na economia das empresas, o que certamente constitui um incentivo muito interessante. Tudo indica que, também na agricultura, a adoção de “boas práticas agrícolas” reverterá não apenas na imagem dos produtores, mas também no resultado financeiro dos sistemas de produção.

Mais recentemente a componente social tem sido adotada também nas exigências principalmente de consumidores. No caso da agricultura, as exigências do cumprimento dos preceitos do desenvolvimento sustentável estão vindo dos importadores, que querem produtos de qualidade, produzidos com respeito ambiental e responsabilidade social. Isso já vem acontecendo para carne, frutas, café e outros produtos.

Enquanto a Europa e os Estados Unidos já equacionaram a incorporação do desenvolvimento sustentável na agricultura na década de 90, no Brasil ainda estamos com o conceito restrito a uns poucos círculos que, em muitos casos, ainda estão na fase da denúncia sem a contraproposta de alternativas ou nas discussões acadêmicas. O perigo dessa situação não deve ser subestimado. Hoje é o público urbano que tem mais força política, sendo a opinião pública mais difícil de ser influenciada pela agricultura. Nessa situação a criação de legislação inadequada não é difícil.

A soja, por exemplo, é vista como planta “desmatadora”, destruidora de florestas, que não cria empregos. Mas poucos sabem que o baixo preço do frango, o famoso R$ 1,00 do Plano Cruzado, não seria possível sem a soja e o milho. A sociedade simplesmente não está informada sobre a realidade de que a maior parte da soja é plantada em terras muito fracas de cerrado e de campo nativo, anteriormente inaproveitadas.

O conceito de “agronegócio”, construído de forma inteligente para dar uma idéia da magnitude econômica do setor, em contraposição à participação no PIB apenas do setor primário da agricultura – muito bem-sucedido nesse objetivo –, tem sido indevidamente correlacionado aos grandes empreendimentos, quando, na verdade, aplica-se a todos os tipos de produtores agrícolas e demais atividades, direta ou indiretamente ligadas à agro-pecuária.

O Brasil tem, pois, fortes realizações na agricultura, que o colocam em vanguarda no mundo, mas carece de uma melhor implementação do desenvolvimento sustentável e de uma comunicação mais eficaz sobre suas realizações para a população de uma forma geral. Nesse contexto, o plantio direto tem dificuldades muito grandes de difundir a sua história de sucesso, ficando restrita ao meio rural, ao mesmo tempo em que a agricultura continua sendo vista com desconfiança por alguns setores urbanos mal informados, que questionam a sustentabilidade da agricultura moderna.
(ra)
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